• Marcelly Chrisostimo

CAOS: relato de uma bibliotecária escolar na volta às aulas em meio à pandemia




Recentemente, precisei fazer uma pausa na produção de conteúdo da Mocinha. Muitos acontecimentos ao mesmo tempo, rotina intensa, primeira turma do meu curso Biblioteca no Mapa, alguns problemas pessoais e principalmente: a volta às aulas.


Na realidade, acho que ninguém que viveu 2020 precisaria explicar o porquê de precisar de uma pausa, não é? Esse foi de longe o ano mais desafiador da minha vida. Mas, eu não sou premiada. Sei que muitas pessoas passaram por perdas de entes queridos para o COVID, perderam empregos, tiveram carga horária reduzida… Mas, a verdade é que todo mundo, em seu próprio nível, vivenciou ou tem vivenciado um alto nível de stress.


Ninguém tem certeza de nada, todo mundo está tentando vencer essas adversidades. E algo que pesou um pouco para mim é que, de certa forma, por conta da minha atividade intensa na produção de conteúdos, às vezes, eu sentia um peso de responsabilidade de ser fonte de inspiração e motivação nesse momento difícil de retorno às aulas.


Acontece que nem eu, em meio a toda a minha positividade, esperava que o Ensino Híbrido seria tão difícil.


A pandemia é uma “tentativa” de lockdown camuflada de quarentena trouxeram para a nossa realidade o Ensino à Distância nas escolas (para as escolas que possuíam recursos e estrutura para isso - deixando claro, que o que compartilho aqui é a partir da minha experiência e vivências, ok?)


Pois bem, foi uma correria doida de se adaptar às opções de tecnologias disponíveis, à nova rotina, adaptar os serviços para garantir que os alunos e professores pudessem continuar contando com a biblioteca e seus serviços…


Foi corrido e caótico? Sim. Mas, nos adaptamos bem.


No meu caso, ainda consegui adiantar a catalogação de uma série de títulos que havia comprado para montar a minha biblioteca do zero. E o tempo foi passando, e bem, fui me acostumando à essa nova rotina.


Até que enfim, começamos a discutir uma possível retomada. Então, meu foco passou a ser estudar e desenvolver protocolos de reabertura, quarentena de títulos, higienização, protocolos de segurança, EPIs… Se você quiser ler mais sobre isso, recomendo esse post aqui do blog. Clique aqui.


E sendo bem honesta, acho que passei tanto tempo estudando e me preparando para esse momento de retomada, que acho que não tinha realmente visualizado como seria. Sabe?

E então, há cerca de dois meses, a escola em que eu trabalho convocou o retorno ao trabalho presencial, ainda sem alunos. Foi um período de adequação de estrutura e também de conhecer os protocolos em prática para preparo e recepção dos alunos.


E foi um Karatê Kid: A briga dos decretos na justiça só me faziam pensar no velho “Bota casaco, tira casaco”... Abre escola, fecha escola. Abre escola, fecha escola…



E abrimos! Abrimos com todos os protocolos de segurança possíveis (lembrando que estou falando da realidade da escola em que eu trabalho, ok?). Honestamente, eu realmente me sinto segura na escola. Agora, no caminho, no metrô cheio já é outra história… rs.


Por conta do retorno dos, minhas expectativas estavam a mil! Lembrando que ainda durante a pandemia, eu transformei uma sala de aula em biblioteca, ne? Os alunos ainda não conheciam essa biblioteca que não teve assim exatamente uma inauguração por conta da pandemia. Então, penseeee numa bibliotecária ansiosa!?


Mas, nem tudo sai exatamente como o planejado...

Alguns professores, por serem parte do grupo de risco ou morarem com pessoas idosas, não estavam aptos para o retorno presencial. E isso significava, além de contratação de professora extra para auxiliar a cobrir essas aulas, que os outros educadores receberiam alguns tempos de aula para cobrir e supervisionar os alunos que estivessem no campus (enquanto o professor titular dava a aula de casa).


Preciso nem entrar em detalhes, né? Mas, se você quiser saber qualquer coisa de álgebra do sexto ao oitavo ano, acho que posso te ajudar. Já supervisionei tantas aulas na última semana que estou provavelmente sabendo de cor!


A questão é que eu precisei dividir minha atenção entre a biblioteca que tinha acabado de abrir, o desenvolvimento da coleção que ainda está nascendo, a supervisão dessas aulas e todas as outras demandas que só quem é uma EUquipe sabe e conhece… Olha, eu estaria mentindo se dissesse que tem sido fácil.


Eu precisei de uma pausa. Precisei respirar. Precisei repensar. Eu me cobro demais e não estar conseguindo entregar o meu melhor na biblioteca por falta de tempo para me dedicar estava me fazendo muito mal. Até que eu decidi tomar algumas ações que me ajudaram a ressignificar e encarar esse período. E eu quero compartilhar isso com vocês.


Vejam bem, eu não estou negando a realidade. Consigo entender que essa não é a realidade ideal e que o ideal era que eu tivesse uma equipe e pudesse me dedicar 100 por cento à nova biblioteca e não precisasse me dividir em mil Marcellys. Mas, reforçar isso não tornará as coisas mais fáceis e poderia me impedir de enxergar algumas oportunidades…


O contato mais próximo com os alunos


A verdade é que participar ativamente das aulas, num formato fixo, tem me feito ter contato com alunos que não frequentariam a biblioteca e não me conheceriam tão rápido. De certa forma, tem me permitido desenvolver um vínculo com parte deles e aumenta as chances de eles irem a biblioteca.


Trazer os alunos para a biblioteca


Nas primeiras semanas, eu precisava fechar a biblioteca e ir até a sala de aula durante as aulas. Mas, consegui autorização para receber essas aulas e alunos na biblioteca. Então, ainda que eles não estejam ali necessariamente interessados nos livros, gosto da ideia de eles aprenderem em meio aquele ambiente. Isso fomenta a ideia de que quando precisarem, a biblioteca estará ali disponível para eles. E eu também.


Colaboração com os professores


Toda escola sempre tem os professores mais abertos à colaborações e aqueles mais reservados. Estar em sala de aula junto com os professores ajuda a desenvolver no imaginário deles a visão da bibliotecária educadora, aquela que faz parte do pedagógico e está diretamente ligada ao ensino. E eu acho que esse é um bom investimento para futuras parcerias.


Demanda de equipe


Desde que iniciei nesse cargo e nessa unidade da escola em que eu trabalho, eu sempre falei sobre precisar de ajuda, um auxiliar ou estagiário. Isso não parecia ser tão evidente para a chefia. Agora, por estar com mais responsabilidades, a biblioteca tem precisado ser fechada em alguns momentos e obviamente, eu não tenho conseguido entregar os mesmos serviços e produtos na mesma velocidade. E a procura e demanda não para de aumentar, o que acaba sendo mais um argumento para que eu consiga negociar a vaga para aumentar minha equipe. Meu chefe já sinalizou que para o ano que vem essa ajuda sai. Oremos!


Crescimento emocional


Eu percebo que eu ainda tenho dificuldades de lidar com altos níveis de stress pela minha cobrança exacerbada. Eu sou perfeccionista assumida e se eu não cuidar, isso pode ser nocivo para minha saúde emocional. Toda essa rotina me fez retomar alguns autocuidados como terapia e tempo para mim mesma. Decidi ter um hobby e me dedicar a ele. Sabe aquilo que fazemos por nós somente? Então, agora eu faço aulas de canto. E tô amando, viu?

Nós não somos o nosso trabalho. Nossa vida não pode ser só trabalho. O trabalho é apenas uma parte de nós. Então, é preciso que dediquemos tempo a outras coisas, outros projetos, outras paixões… isso oxigena toda a engrenagem.


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