• Marcelly Chrisostimo

O perfil da estagiária de biblioteca escolar: a perdida - um clássico


Pelo meu discurso de defender que cada um deve ler o que quiser, quando quiser e como quiser (na medida do possível), você já deve ter notado que eu não sou bem aquele padrão de bibliotecária de oclinhos, coque e dedo em riste pedindo silêncio absoluto.


Talvez, essa seja uma consequência da dificuldade que eu sempre tive de ler títulos clássicos. Eu tenho pavor de quem dá muita volta pra falar. Pra que desperdiçar tanta tinta e papel? Descrever um cenário ou personagem é diferente de usar palavras super rebuscadas para tentar impressionar. Eu sempre fui uma pessoa alegre, solar, falante e às vezes, um pouco espalhafatosa até. Apesar de séria quando me concentro, eu tendo a ser aquela que não consegue ficar quieta ou calada. O menos é mais e eu gosto de simplificar as coisas - o que até me trouxe algumas críticas enquanto eu produzia minha dissertação, pois a minha linguagem não é exatamente acadêmica...


A questão é que se pensarmos no estereótipo de biblioteca como lugar de silêncio, reservado e tudo o mais, eu nunca me encaixaria. Eu não sou comum. Me lembro dos meus primeiros dias de estagiária. Eu era desajeitada, desastrada, barulhenta, estabanada... E já cheguei a me perguntar o porquê alguém investiria em mim e me daria uma vaga de emprego em uma biblioteca se eu claramente "não tinha o perfil".


Ora, eu achava que não tinha o perfil, mas como um ímã, havia algo na biblioteca escolar que me atraía, ainda que eu não entendesse bem o que era. Como aquela série que a gente maratona e fica completamente viciado pelo próximo episódio, eu me sentia completamente cheia de expectativas pelo próximo capítulo que se desenrolaria no dia seguinte de trabalho. E a cada temporada, eu me redescobria e desconstruía a imagem que eu tinha de perfil ideal para se trabalhar em um nicho específico.


No começo, assim como a maioria das pessoas, eu me senti completamente perdida. Essa foto, por exemplo, foi uma tentativa de arquivar alguns livros e de repente, eles começaram a cair em cascata em cima da minha cabeça. Naquele dia, eu achei que perderia meu emprego, achei que levaria uma grande advertência ou coisa do tipo. E eu tive apenas uma chefe que riu da situação, correu, pegou a câmera e garantiu esse registro.

E sou grata por ter tido uma mentora. Alguém que me auxiliou a desconstruir e acreditou em mim, investiu no meu potencial e me deu espaço para desenvolver as habilidades necessárias. Ela me mostrou como uma bibliotecária pode ser diferente do que eu jamais havia imaginado. Pouco a pouco, cada uma das minhas referências foi substituída. Aquela biblioteca silenciosa se tornou por um espaço alegre, aconchegante e acolhedor. Uma movimentada biblioteca escolar. Vez ou outra, era preciso lembrar aos alunos que precisavam moderar no volume, mas não consigo traduzir em palavras a satisfação de ver os alunos quererem estar na biblioteca durante seu horário livre.


A coleção de clássicos da literatura e livros didáticos da minha cabeça se transformou em um acervo variado e que se comunicava aos interesses dos alunos.


E o perfil da bibliotecária "padrão" foi substituído pela liberdade de ser quem realmente somos, usar e abusar da criatividade e explorar as características que fazem com que nos destaquemos.


O que a experiência e maturidade me mostraram é que ser diferente não precisa necessariamente ser um defeito. Ser diferente pode ser ressignificado e agregar à uma classe profissional que clama por mudanças. Mesmo que resistente, dia após dia, eu vejo que existe sim uma geração de estudantes e profissionais disposto a ser e fazer diferente. E essa é a minha bandeira e minha esperança. É natural se sentir inseguro no começo, mas exponha sua essência e em algum momento, as pessoas que se identificam com você se aproximarão. Afinal, você está aqui, certo?



Para você, querido leitor, que chegou até aqui, se você também quiser fazer uma capa da Penguin com alguma foto sua e protagonizar "um clássico", existe um site que gera essas capas de forma automática. Tudo o que você precisará fazer é o upload da foto que quer usar e escolher um título bem bacanudo. Disponível aqui. Se você fizer e postar nas redes sociais, marca a @mocinhadabiblio que eu vou amar ver!

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