• Marcelly Chrisostimo

O "tabu" de falar sobre dinheiro e orçamento: Por que tanta gente tem medo de falar sobre números?

"Você acha que falar sobre dinheiro é um tabu?"

Foto via Unsplash.


Há alguns dias lancei essa pergunta no meu perfil do Instagram e foi curioso ler as respostas. A grande maioria das pessoas admitiu ter dificuldades em sua relação com dinheiro. Não foi possível aprofundar a discussão, mas mesmo superficialmente, a gente consegue observar que dinheiro não é só dinheiro. Existem questões culturais, sociais... travas emocionais que muitas vezes são até inconscientes.


Lembro-me que quando consegui o meu primeiro emprego, minha mãe me alarmou olhando bem nos olhos e disse: “Minha filha, nunca diga o quanto você ganha para ninguém.” Eu nunca entendi direito a motivação desse conselho, mas parecia ser algo relacionado a me proteger de inveja e mal olhado. Eu não conseguia entender quem invejaria meu pequeno salário de caixa de loja extra natal conquistado com muito suor e lágrimas…


Onze anos depois, vejo que minha pouca ou nenhuma vergonha de falar sobre salários e valores deixou muitas vezes, as pessoas com quem eu falava um tanto desconcertadas. E eu sempre lembrava da minha mãe. mas, ok. Conselho de mãe, né?


Houve uma ocasião, em que após ser contratada para montar uma biblioteca do zero, e após semanas de levantamento dos materiais iniciais necessários, elaborei uma proposta para aprovação e bati na porta do chefe. Expliquei a ele a necessidade e que eu precisava saber exatamente qual seria o valor destinado para esse projeto, para que eu pudesse planejar adequadamente.


O diretor sorriu e me pediu que eu elaborasse uma lista com o material e voltasse a ele com o valor necessário. Eu sorri e disse que já possuía o valor. Eu quase quase consigo viver essa cena novamente. Eu vi por um segundo a surpresa nos olhos dele. Ele realmente achou que eu pediria dinheiro sem saber quanto? Eu não recuei. Eu não estava desconfortável.


Ele sorriu ao perguntar de quanto estávamos falando e riu alto quando ouviu a resposta. Eu disse a ele que poderia reduzir um pouco, mas que havia um mínimo aceitável.

Saí da reunião com a promessa de que ele levaria a proposta e meu planejamento ao financeiro. E ele levou meio que tentando não me dar muitas esperanças. Tempos depois, recebi o aval para compra dos materiais que eu propus.


O que quero trazer aqui é a reflexão de que dinheiro é só dinheiro. Números são só números. Dinheiro não é um bicho papão, não é um monstro e nem Lord Voldemort para ser aquele-que-não-deve-ser-nomeado. Dinheiro é instrumento. E conhecer e estar apto a discutir sobre esse recurso é uma das habilidades que um bom gestor precisa desenvolver.

Na vida pessoal, costumo encarar dinheiro como resultado de trabalho ou moeda de troca pelo meu tempo.


Quem vive próximo a mim, pode me considerar o pai do Chris, Julius, em poucos momentos, eu estava em somente um emprego.



Foto via Capricho.


E apesar de sempre correr atrás de mais oportunidades de trabalho, freelas e etc., eu sempre planejei e pensei muito antes de investir meu suado dinheirinho em algo.


Sou aquela indecisa que pode ficar dias pesquisando um produto de desejo. Entra no site, sai do site, lê as configurações, compara com outros sites, pensa mais um pouco… o dia passa. Repete o ciclo no dia seguinte…. Veja bem, eu não sou pão dura, nem nada assim. Não tenho pena de gastar dinheiro, mas vejo o dinheiro como tempo. Como assim?


A empresa em que eu trabalho compra 40 horas da minha vida semanalmente. Isso dá em média 160 horas por mês em troca de um salário. Se você dividir seu salário pelo número de horas de trabalho mensal, terá uma média do custo de sua hora.


Basicamente, quando eu desejo comprar algo que considero caro, eu penso nas 5 perguntas do comprador esperto:


Eu quero? - Os estímulos, ofertas e novidades são tantos, que às vezes, a gente pode se perder até nas nossas vontades. É preciso refletir e consultar com você mesmo se o que você quer é realmente o que você quer ou se é algo que você viu, achou interessante e está sendo influenciado por um marketing super poderoso que te fez acreditar que você quer.


Eu mereço? - Pode parecer meio louco, mas gosto de avaliar se tenho cumprido minhas metas, me dedicado a elas, se tenho procrastinado e tal. Quando quero muito algo que parece caro demais ou um grande investimento, estabeleço alvos e uso a coisa em questão como recompensa. Estou doida por um kindle novo, por exemplo. Mas, o meu funciona e não tenho lido muito nele ultimamente. Decidi me comprar um novo quando terminar as leituras que estão lá.


Eu preciso? - Muitas vezes, nós criamos desculpas para nós mesmos. Tendemos a dizer que precisamos daquela nova blusinha, precisamos daquele novo sapato, mas na verdade é só algo que queremos. E não é um erro querer algo, só precisamos entender bem a diferença entre um e outro. É um exercício, porque toda vez que entro em uma papelaria, digo pra mim mesma que eu não preciso de um novo caderno. (Sou viciada em cadernos e canetas).


Eu posso? - Essa é a mais difícil. Principalmente para uma pessoa que vem de uma realidade simples como eu. A gente cria muitas crenças limitantes. Há quem viva acima do padrão que poderia e viva endividado. Há quem viva abaixo e não desfrute de tudo que poderia. E eu vivi abaixo por muito tempo, talvez, consequência de ter conquistado coisas que seriam impossíveis para alguém “vindo de onde eu vim”. E para mim, é uma alegria poder dizer que hoje, eu vivo no padrão que eu posso. Se um dia eu não puder, a renda variar, eu vou ajustar. E tá tudo bem. Mas, os dias de ter pena de comprar um presente para mim mesma porque é “caro” acabaram.


Eu devo? - Essa pergunta talvez seja a que mais se relaciona com planejamento. É possível você querer, precisar e poder, mas não ser o momento correto para concretizar a compra. Quais são os efeitos colaterais de fazer a viagem dos seus sonhos? O que você ganhará e o que terá de abrir mão? Impactará as pessoas próximas a você? É justo e ecológico?

Não necessariamente, para eu decidir fazer um investimento alto, preciso dizer sim para todas essas perguntas. Mas, elas me ajudaram ao longo do tempo a ressignificar a minha relação com dinheiro. Recomendo que você busque mais sobre isso se o dinheiro é um tabu para você.


As consequências de colocar o dinheiro no lugar dele nos auxilia a ter uma clareza para lidar com orçamentos e recursos também no ambiente profissional. Precisamos ter em mente que, em muitos casos, receber um não de um gestor não necessariamente significa que ele não valoriza a biblioteca. Pode até ser que não valorize, mas essa pode não ser a única causa que gerou a recusa. Existem diversos aspectos que um gestor precisa considerar em termos de demandas e prioridades.


Observe a sua postura, sua forma de falar. Quando solicita recursos à sua gestão, você pede X de boca? Ou elabora um e-mail detalhado? Quando vai à uma reunião, você tem vergonha de falar de valores?Se for o caso de a negativa pelo pedido de recursos for sempre negativa, sugiro que você elabore um planejamento claro e objetivo. Sabe a história do óbvio precisa ser dito? Elabore um planejamento com o óbvio. Liste as necessidades da biblioteca, explique a importância de cada item, dê detalhes de aplicabilidade e usabilidade, mencione quem serão os beneficiados, cite as vantagens e se possível, a economia a longo prazo.




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