• Marcelly Chrisostimo

Os Direitos do Leitor



Quando penso em Leis, Direitos e Deveres, penso sempre em algo engessado, uma estrutura rígida para manter a ordem. E nossa sociedade tende a reproduzir isso. Seja na escola, na faculdade, na vida mesmo.

Nós, como bibliotecárias, costumamos sempre estabelecer regras de convivência para a biblioteca. Nas bibliotecas escolares, isso é ainda mais necessário, afinal, nossos usuários ainda estão em formação e a escola é o primeiro contato deles com a sociedade, por assim dizer.


Como você estrutura as regras de convivência na sua biblioteca? Faz um mural na entrada? Utiliza imagens? Quais termos utiliza? Há alguns anos, fiz um curso sobre gerenciamento de comportamento - se você já teve que lidar com dezenas de crianças e adolescentes na hora do recreio em uma biblioteca lotada, sabe que é super necessário - e nesse curso, eu aprendi muitas coisas, mas a que mais me marcou foi o uso da linguagem positiva.


Sabe aquele mural cheio de nãos, vermelhos e símbolos de proibido? Há quem acredite que o fato de dizermos: "Não corra" fará com que o aluno leve mais tempo para processar a informação em seu cérebro do que só dissermos "Ande!". Desde então, me esforço para deixar as "regras" ou combinados da biblioteca sempre visíveis, em linguagem positiva e o mais enxutos possível. Ninguém tem paciência para um milhão de regras... Desde que haja respeito e bom senso, vai dar tudo certo. É uma desconstrução de tudo que a gente (vindo de uma educação tradicional) conheceu. Mudemos o foco para onde ele deveria estar desde o início - nas possibilidades e não nas limitações.


E qual não foi a minha surpresa durante minha pesquisa para o Mestrado ao conhecer o livro Como um Romance de Daniel Pennac. Nele, o autor apresenta os 10 direitos imprescindíveis do leitor. Como assim o leitor tem direitos e eu nunca ouvi falar durante toda uma graduação em Biblioteconomia? Fiquei num misto de decepção comigo mesma e alegria por finalmente ter acesso a isso.


Nem preciso dizer que usei e abusei de citações desse livro na dissertação, não é? Não somente por estar feliz com essa descoberta, mas, porque assim como quando conheci outros autores que escreviam sobre leitura (como Michele Petit e Genevieve Patte...) e compartilhavam o mesmo ponto de vista que eu, encontrei minha tribo. Eu não estava mais sozinha no mundo das minhas ideias "mirabolantes". E acredite, eu tenho muitas ideias mirabolantes.


Sabe quando você lê algo que gostaria de você mesma ter escrito? Me sinto assim com a obra do Pennac. Segue um trecho da minha dissertação em que falo um pouco sobre isso:


“Resumidamente, ele defende o direito de ler o que, como, quando e onde quiser. E o de não exercer esses direitos.

Ou seja, Pennac defende não a leitura em si, mas o direito à escolha de quem lê e de quem não lê também. Ele caracteriza a todos nós como leitores.”


Vamos falar sobre cada um deles?


1 - O direito de NÃO LER


A primeira e melhor lei é, na minha humilde opinião, a mais simples e ao mesmo tempo, revolucionária. Obviamente, ninguém deveria ser obrigado a nada. Mas, o fato de dizer a um leitor que ele pode não ler nos ajuda a desmistificar muitas coisas, inclusive, que tá tudo bem não querer fazer o que todos esperam que você faça. Isso não faz com que você deixe de ser um leitor. Todos somos feitos de momentos e até o mais ávido leitor pode passar por momentos em que a leitura não lhe pareça atraente.


Eu mesma, amo ler, e há um tempo atrás, se me dissessem que eu passaria mais de 40 dias em casa em quarentena, eu iria devorar inúmeros livros e "por a leitura em dia". Mas, e se eu te disser que nunca li tão pouco? Tenho lido, claro, mas, tem tantas coisas ocupando minha mente no momento e fazer home office nos expõe a tanto tempo de tela, que eu, honestamente, no final do dia, só quero deitar e dormir. É só uma fase e vai passar. Eu, como leitora, tenho o direito de não ler. E tá tudo bem.



2 - O direito de PULAR PÁGINAS



E que atire a primeira pedra quem nunca leu um livro só para fazer uma prova. Te impuseram a necessidade de ler um livro que você jamais leria. E ao procrastinar absolutamente o máximo que pode, se viu na véspera da prova tendo que responder a perguntas que verificariam se você leu... Não dava tempo de ler tudo e você só pulou para a parte que julgou mais importante.


No meu caso, eu não gosto de leituras muito descritivas, comum em clássicos. Não tenho paciência para títulos muito rebuscados e que levam páginas inteiras descrevendo um cenário, ou um objeto. Me sinto irritada. E nesses casos, eu pulava página sem dó. Hoje, só escolho títulos e gêneros mais alinhados ao meu gosto pessoal, então, não tenho precisado mais. Mas, se precisar, tá tudo bem também.


3 - O direito de NÃO terminar um livro



Ah, gente. Esse é um dos meus direitos favoritos! Eu não sei quem enfiou na cabeça das crianças que elas TEM QUE terminar todos os livros que leem. Luto todos os dias para desconstruir essa ideia que trava tanto o interesse deles por novos livros e aventuras. Salvo algumas exceções de livros que demoram a engrenar e que vale a pena passar pela fase do marasmo, eu já abandonei livros inúmeras vezes.


Eu mesma, digo para os meus alunos lerem as primeiras páginas para ver se gostam antes de pegar um titulo emprestado. A gente precisa se permitir mais.


Admiro aqueles que arrastam a leitura que não lhes dá nenhum prazer só pela curiosidade de saber o final, mas para os que fazem isso por "vergonha" de dizer que abandonaram uma leitura, desejo LIBERDADE! Libertem-se dessas amarras que vocês idealizaram. Não existe competição de melhor ou maior leitor. Seja livre e feliz com suas leituras!


4 - O direito de RELER



J. K. Rowling mandou lembranças! Já perdi as contas de quantas vezes reli meus livros favoritos. E olha que eu não sou de reler não... fico meio desanimada quando sei o que me espera, mas existem livros que nos marcam de uma forma diferente.


Se você tem filhos pequenos ou já trabalhou com educação infantil, entende bem o que eu estou dizendo. Já tive um aluno que escondeu o livro na sala de aula porque não queria devolver à biblioteca. Ele escondeu porque queria o livro pra ele, queria ler todos os dias a mesma história. Os pais diziam que já haviam enviado de volta pra escola e eu nunca recebi. A professora não viu, afinal, ele escondeu. Quando descobrimos a verdade, tive que me segurar para não apertar as bochechas daquele menininho fofo me explicando o quanto aquele livro era importante para ele. E ele ficou feliz quando eu disse a ele que para isso existe a renovação do empréstimo. Final feliz para todos.


5 - O direito de LER QUALQUER COISA



Na minha pesquisa, apliquei questionários a uma amostra de alunos. Dentro desse questionário, havia a pergunta de o que era preciso ler para ser considerado um leitor. (E havia a opção qualquer coisa também). E pasme, a MAIORIA esmagadora dos alunos marcou a opção de que para ser considerado leitor é preciso ler os clássicos da literatura. O que estamos fazendo com nossas crianças? DEIXE QUE LEIAM (como diz Genevieve Patte). Seja um clássico, ficção contemporânea, histórias em quadrinhos, jornal, sites, post de rede social, bula de remédio... toda e qualquer leitura é válida. Jamais desmereça o que uma pessoa esteja lendo porque não vai de encontro aos seus gostos pessoais. E isso vale para todos nós.


6 - O direito ao BOVARISMO

Se você já leu Madame Bovary de Gustave Flaubert, entende o que Bovarismo quer dizer. Bovarismo resumidamente é quando nós incorporamos comportamentos e características das personagens dos livros que estamos lendo à nossa personalidade e rotina. Sabe quando você foge da realidade e cria uma nova para si?


Pode ser quando você leu Harry Potter e se deu conta de que tinha mais de 11 anos e sua cartinha de Hogwarts não chegou.


7 - Ler em QUALQUER lugar


Onde você gosta de ler? Eu tento sempre andar com um livro ou o Kindle na bolsa. Gosto muito de ler no metrô/transporte. Se tenho que esperar algo ou alguém numa fila, me conforta saber que tenho um livro pra me distrair! Também amo ler na praia com meu Kindle porque ele não reflete a luz e eu amo pegar o solzinho da manhã sozinha. Meu companheiro de aventuras - estou desejando um kindle novo - a prova dagua - meu aniversário é em 6 de dezembro, para quem interessar! Eu faço cara de surpresa e tudo! Mas, o meu local favorito para ler é em uma rede ou na minha cama. Eu leio até o livro cair na minha cara e meu marido gentilmente vir resgatar o pobre livro antes que eu o amasse todinho.


8 - O direito de ler uma frase aqui e outra ali



Esse direito me lembra muito um livro que precisei ler para um seminário no mestrado chamado "Como falar dos livros que não lemos". Talvez seja um dos meus livros favoritos! Recomendo a todos.


Livros de poesia são muito assim para mim. Gosto de ler coisa aqui e acolá. Sem pressões, sem neuras ou pressa para acabar.


9 - O direito de ler em voz alta


De todos os direitos, talvez esse seja o que pessoalmente mais me irrite. Não porque eu não acho que esteja correto, mas porque eu me desconcentro facilmente. Costumo procurar um lugar livre de distrações e silencioso ou enfio os fones no ouvido e ligo uma musica que me isole do ambiente.


Há pessoas, que precisam se ouvir para assimilar e por isso, ler em voz alta precisa ser entendido e respeitado. Eu tenho sempre um fone na bolsa mesmo... Dê vida às palavras e solta o vozeirão por aí!


10 - O direito de CALAR.



Pessoalmente, pratico esse direito para além da leitura. As pessoas entraram em uma de que elas querem que você concorde com elas a todo custo. Elas desaprenderam a conviver com opiniões e gostos diferentes. Não precisamos todos gostar de ler o mesmo livro, do mesmo autor... O que seria do doce se todos gostassem do salgado? Somos livres para escolher o que ler e também para não compartilhar nossa opinião sobre as leituras se assim não nos sentirmos confortáveis.


No final, é tudo sobre liberdade de sermos quem quisermos, de sairmos da passividade do que está estabelecido e fazer nossas próprias escolhas. E eu não estou falando só sobre livros.




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