• Marcelly Chrisostimo

Por onde eu começo? - Seleção e Aquisição na Biblioteca Escolar

A maioria das bibliotecárias que me procura para mentoria e conselhos tem essa dificuldade em comum: Como selecionar? E elas vão além: Você tem uma lista com os “melhores livros” pronta para compartilhar? Por onde eu começo?


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Pelo começo, ué!


A gente é naturalmente inseguro. Não se engane, até o mais experiente profissional, se deparou com algum momento de sua trajetória onde a dúvida falou alto. O que distingue ele de quem está começando é que ele teve tempo, tentativa e oportunidade de aprender com seus erros. Me pergunto o porquê de termos tanto medo de errar... Será o desejo pela aprovação? Eu preciso de antemão te dizer que na maioria das vezes, as respostas para suas perguntas não estão fora, mas dentro. Não adianta você buscar por listas prontas, comprar tudo igualzinho a outra bibliotecária porque a biblioteca dela é um sucesso... a lista dela serviu para ela, para a biblioteca dela, seus usuários… não necessariamente terá o mesmo efeito na sua, sabe?


Gosto de analogias! Pense que você está se mudando e mobiliando uma casa do zero. Como você escolheria os móveis? Você copiaria todos os móveis usados na casa de outra pessoa ou pesquisaria, avaliaria o que precisa, compararia, buscaria avaliações, e escolheria a partir do melhor custo x benefício e usabilidade tendo em vista a realidade dos moradores (usuários)?


Então, por que tantas pessoas acreditam que para desenvolver uma coleção, é necessário copiar os livros que estão em outra biblioteca? Não, gente.. Não!

Elaborei algumas dicas que podem te auxiliar a clarear as ideias quanto às decisões no processo de seleção. Cada pergunta poderá se desmembrar em outras perguntas. Dedique um tempo para responder cada uma. Papel e caneta na mão! (Ou Word aberto!).


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COMECE PELO PORQUÊ



Por que e para que sua biblioteca foi criada?


Entenda que o propósito precede a criação. Não criamos uma cadeira e então decidimos que usaremos para sentar. Nós temos uma necessidade de se sentar em algum lugar e por isso, criamos uma cadeira, banco ou o que seja. Dedique um tempo para descrever a missão, valores e objetivos. Encontre o manual da biblioteca em que você está atuando, essas informações estarão lá. Se a biblioteca não possuir um, pare tudo o que está fazendo e dedique-se criar um.


Para quem sua biblioteca foi criada?


A razão de ser da biblioteca é o usuário. Nós catalogamos, organizamos, desenvolvemos para o público, os usuários, alunos, no caso da biblioteca escolar. Se não houver quem consuma o resultado de todo esse trabalho, qual é o sentido? Tenha sempre isso em mente! A quem essa biblioteca irá atender? Se alunos, qual a faixa etária deles? Quais as séries que a escola em que você está inserido atende? Quantos são os seus usuários? De quantos usuários estamos falando? A biblioteca fica aberta à comunidade externa? O ideal é fazer um estudo de usuários e comunidades.


Após conhecer a instituição em que a biblioteca está inserida, é hora de olhar para sua biblioteca. O propósito precede a criação. Não criamos para definir o propósito, pelo contrário! Lembram da cadeira? Apresentamos a dificuldade, a necessidade e então criamos algo para solucionar essa demanda. Então, é importante analisar e estudar os propósitos.



A IMPORTÂNCIA DE CONHECER O CURRÍCULO


Como defendem Maciel e Mendonça, a biblioteca é uma organização dentro de uma organização. Então, antes de focar nos detalhes, eu recomendo que você tente pensar de forma MACRO!


Pela minha experiência, eu costumo escolher sempre usar o currículo da escola ou instituição como ponto de partida. Leio página por página, faço anotações, analiso os assuntos e principalmente as bibliografias básica e complementar. Identifico também possíveis temas sazonais, datas comemorativas e trabalhadas pela escola para garantir que a minha coleção esteja atendendo às principais demandas que possam vir a surgir ao longo do ano letivo.

Os primeiros títulos da minha lista de seleção sempre são os títulos e autores dos currículos. E eu não estou falando de títulos paradidáticos necessariamente. Por exemplo, se o currículo aborda o tema Segunda Guerra Mundial, eu faço um levantamento sobre os principais títulos e autores do assunto e analiso o que seria interessante para minha coleção. Lembrando sempre de adequar a linguagem ao meu público!


Se o objetivo principal é atender e apoiar o currículo da escola, como fazer isso sem conhecê-lo? Quais os projetos da escola e qual o currículo ela segue? Quais assuntos ele cobre e de que maneira? Qual a bibliografia básica desse currículo e quais autores são trabalhados?



COMO A BIBLIOTECA PODE ATENDER AOS USUÁRIOS?



Se você já identificamos os principais valores, objetivos e tópicos que o acervo precisa abordar, precisamos pegar papel e caneta e começar o planejamento. O planejamento é a alma do negócio para uma execução de sucesso. Porque ainda que você enfrente imprevistos (e você irá sempre enfrentar), ter um plano te permitirá desenvolver uma visão a longo prazo e não te sobrecarregar tanto com o cumprimento de demandas. Ele também te ajudará a não se perder em meio a um milhão de ideias.

Aqui, costumo buscar a direção da escola e professores também e tentar entender primeiro quais são as expectativas. Após ter elas definidas, planejo e projeto como posso oferecer o necessário e também, como superar e oferecer mais. Porém, meu conselho é: faça o básico bem feito primeiro e a partir dele evolua. De nada adianta fazer um evento literário maravilhoso se você não conseguir atender as demandas mais básicas do seu público.

Algumas perguntas que podem te ajudar:

Quais serviços sua biblioteca pretende oferecer? Qual será o horário de funcionamento? Você tem uma equipe ou será uma EUquipe como eu? Cada um tem uma função atribuída ou vocês vão lidando com a demanda quando ela surge? Como irá organizar essa demanda? Terá aulas fixas na grade de horários? Com que frequência? Quais os projetos que pretende implementar?


O óbvio precisa ser dito. E independente da instituição, quase sempre, os problemas surgem a partir de uma falha na comunicação. Comunique-se de forma clara, alinhe as expectativas, certifique-se de que todos tem total clareza do que é esperado e de suas responsabilidades e registre tudo o que puder.


Uma última, mas não menos importante dica que dou é: esqueça a ideia de comprar tudo de uma vez. Ninguém nunca conseguirá fazer isso. Nem é saudável em nenhum aspecto. Lembrem do Tio Ranga: a biblioteca é um organismo em crescimento. E estar em crescimento significa estar em constante avaliação e mudança. O importante é dar um passo de cada vez na direção correta.


Mais uma vez, não pretendo aqui discutir a teoria nem termos técnicos de qualquer assunto. Todas as minhas dicas e reflexões são baseadas na minha própria experiência no gerenciamento e rotina da biblioteca. Fique a vontade para aproveitar o que considerar que cabe e a adaptar o que for necessário. E se for possível, compartilhe alguma dica não mencionada! Seu conhecimento pode ajudar alguém!



Recomendação de leitura: MACIEL, Alba Costa; MENDONÇA, Marília Alvarenga Rocha. Bibliotecas como organizações. Rio de Janeiro: Interciência; Niterói: Intertexto, 2006.


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